O desabafo de uma estudante de medicina
Era uma vez uma estudante... Após vários anos tentando, passou no vestibular para o curso tão almejado: MEDICINA. Muita comemoração, muita alegria, coração cheio de sonhos e expectativas. Chegou o grande dia! Saiu de casa e foi morar numa cidade que não conhecia. No primeiro dia de aula, coração disparado, cercada por pessoas desconhecidas em frente a recepção da Faculdade sem saber para onde olhar, com quem falar... A timidez não deixava. Passou pelo trote, conheceu gente e com o decorrer dos dias fez inúmeras amizades, umas levará para o resto da vida, outras não. Ninguém é perfeito. Passou por muitas alegrias e tristezas também. Estudou. Estudou muito... Ficou de final, morrendo de medo de ser reprovada em certas disciplinas. E, pasmem: chegou a subir o Horto do “meu padim” por conta de uma prova de biofisiologia. No fim deu tudo certo. S1, S2, S3, S4, S5, S6, S7, S8... Muito aprendizado, não só acadêmico, mas pessoal também. Muita bagagem para a vida. Desilusões? Inúmeras, mas quem nunca passou por isso? Professores “intragáveis”? Vários e ela nem consegue contar... Professores que a apoiaram e que ajudaram quando ela precisou? Muitos também...
Momento do internato: tempo de por em prática tudo o que ela aprendeu na vida acadêmica e período de adquirir conhecimentos também. Muito medo do desconhecido. O que acharia do primeiro dia? Como se comportar diante dos pacientes que a veriam como médica? O que dizer? Como agiria diante dos internos mais antigos? Será que falaria alguma besteira? Cometeria algum erro? Melhor ficar calada. Primeiro rodízio? Clínica Médica. Por que logo o mais difícil primeiro? Um grande susto após o sorteio. Dias depois ela se conformou. Procurou livros de clínica médica, conversou com colegas que já haviam passado pelo rodízio, pesquisou bastante. Ouviu experiências negativas e positivas também. Conversou sobre o hospital, os preceptores, as provas (“o grande pesadelo dos internos de clínica!”), o rodízio fora do estado... Muitos já tinham uma opinião formada sobre esses assuntos. Mas como saber, se ainda não tinha passado pela experiência? Esperou ansiosamente as férias acabarem. Contudo, aproveitou o máximo o tempo que lhe restava pertinho da família, pois não sabia quando voltaria a sua casa. Férias acabadas, mala pronta. Despediu-se de sua família. Coração apertado, mas cheio de alegria. Afinal, era chegado o início de uma nova etapa. Tempo de mudança e crescimento...
No hospital, primeiro dia como interna: uma mistura de medo, angustia, timidez, felicidade, euforia, realização. Encontrou-se com seu grupo às 7 horas da manhã. O que aconteceria? Eles teriam uma reunião com explicações sobre o rodízio? Condutas? Os preceptores falariam sobre o funcionamento do serviço? Ela esperou. Todavia, naquele momento, nenhum preceptor apareceu. O que havia acontecido? Chegou cedo demais? Não. Já estava atrasada e não sabia. Um interno mais antigo se dirigiu ao grupo e disse a terrível frase: “sejam bem vindos ao descaso!”. Ela se assustou, mas ficou calada. Então o interno prosseguiu mostrando os prontuários para o grupo e mencionou que deveriam ir até os leitos e evoluírem os pacientes e que caso chegassem atrasados, evoluiriam mais de um, como se isso fosse um “castigo”. Além do mais, disse que assim que os preceptores chegassem, cada subgrupo se reuniria e cada interno passaria o seu caso para o grupo e seu respectivo preceptor. Evoluir paciente? Como assim? E como se evolui um paciente? A estudante encontrou uma colega interna mais antiga e perguntou como deveria proceder naquela situação. A mesma a explicou. Seguiu então ao seu paciente e assim o fez. Depois de muito tempo de espera, a preceptora enfim chegou e chamou todos os internos para a sala dos médicos. Segundo ela, seria feita uma reunião naquele momento. O novo grupo, esperando ansiosamente por informações, se decepcionou. A preceptora falou rápida e superficialmente como seria o rodízio e seguiu com seu grupo para o mesmo lhe passar o caso. Fim da primeira manhã como interna.
Os dias foram se passando, entre casos fáceis e difíceis, resultados de exames impossíveis de chegar, hemogramas com valores inimagináveis, solicitações de exames que não seriam realizados, maratonas por uma maca, idas e vindas acompanhando seus pacientes em consultas e realizações de exames em outros hospitais, a espera interminável da ambulância que as vezes não aparecia... Viu pessoas morrerem por falta de material. Ouviu desaforos, alguns “nãos”, mas sempre preocupada com seus pacientes. Porque, afinal, se ela não desse o máximo de si por eles, quem daria? Sentiu raiva em alguns momentos. Revolta? Certamente. No entanto, não brigou com ninguém. As vezes ela se arrepende por isso. Não por não ter se indisposto com alguém, mas por ter permanecido calada. Será que se tivesse reclamado mais, ou falado com seus superiores teria resolvido o problema? Acho que não. “Uma andorinha só não faz verão.” Pensou em se reunir com todos os seus colegas internos e, de alguma forma, propor à Instituição de Ensino mudanças com relação aos rodízios. Impossível. Muitos estavam preocupados com sua linda festa de formatura, outros com medo de sofrer retaliações que viriam com a prova teórica, estes com razão, poque isso acontece mesmo. Vergonha. Como podem esquecer dos próximos internos que estarão logo logo nesta mesma situação? Onde está o “eu estou fazendo medicina poque quero ajudar pessoas”? Como ajudar o paciente se o hospital vai mal? Como aprender a ser médicos humanizados se muitas vezes estão diante de médicos que nem se dirigem ao indivíduo quando estão a discutir o seu caso? Isso é um caso a se pensar...
O primeiro mês passou. A estudante foi rodar os dois meses seguintes fora da cidade. Outra realidade. Acesso a diversos exames, os resultados chegavam sempre com agilidade, mais pacientes, mais casos para estudar, preceptores entusiasmados e preocupados em ensinar. Outro nível de serviço. Muitas novidades. Estudo e mais estudo. Novas amizades. Mais facilidade, família perto. Houve momentos difíceis? Obviamente que sim. Não foi somente um “mar de rosas”. Não gostou muito do ambulatório, preferiu o do seu Hospital Escola. Rodou na UTI. Muita adrenalina, emergência, ressuscitação cardiopulmonar, correria, estresse, desespero de familiares. Viu algumas pessoas morrerem. Como era de se esperar, a maioria dos pacientes da UTI não falavam, não interagiam com a estudante. Ler a história do paciente, pois ele não pode contar, fazer a admissão, realizar o exame físico, checar sinais vitais, solicitar exames laboratoriais, exames de imagem e pronto. Decidiu que não escolheria trabalhar em tal ambiente. E assim se passaram os dois meses, entre pacientes e pacientes, condutas e condutas. Momento muito proveitoso e de crescimento. Chegou a hora de se despedir novamente. Coração triste, pois estava se separando da família e sabia o que lhe esperava por mais um mês em seu Hospital Escola. Medo, angústia, raiva, seguidos de conformação e esperança de que algo tivesse melhorado.
Chegou, deu bom dia, pegou seu prontuário e seguiu para o seu respectivo paciente. E, chegando lá, viu um homem jovem, com seus 33 anos, desnutrido, ascite, muito debilitado, com diagnóstico de câncer e já com provável metástase. Desanimado e depressivo. Ela descobriu que já fazia meses que o mesmo se encontrava naquela situação. Tinha sido transferido da clínica cirúrgica. A estudante o acompanhou, fazendo o possível para que o mesmo se sentisse melhor. Ele precisava realizar um determinado exame em Fortaleza, mas se recusava categoricamente e pedia para que o deixassem morrer em casa. Depois de inúmeras tentativas, uma vaga na UTI do Hospital de Referência para o caso dele foi disponibilizada. O mesmo foi transferido e faleceu no local. A interna ficou abalada com a sua morte e triste por não ter ocorrido em sua residencia, local almejado por ele desde o início. Concomitantemente com o paciente anterior, a interna estava acompanhando outro, também com diagnóstico de câncer. Neste caso, um senhor de seus 70 anos, bem ríspido ao falar. Muito agressivo, não cooperava com o exame. Reclamava de tudo. Ela se sentia desconfortável quando o examinava, chegou até a sentir raiva por alguns momentos, mas sempre demonstrava-se simpática e dedicada ao hostil vovô. Quando o mesmo recebeu alta para tratamento paliativo em sua residência, a surpresa: ele se despediu e pediu desculpas a estudante pelo seu comportamento, e, comentou com a enfermeira que brigou muito, mas que estava feliz, pois já havia sido perdoado. Um momento de alegria e muito aprendizado para a interna...
Outro paciente marcante, um senhor de mais de 70 anos, com demência, desnutrido, não falava, não andava, somente olhava. Um olhar triste e assustado. Quando o examinava, o mesmo tremia, no sentido literal da palavra. Medo. Diagnóstico: Pneumonia. Tinha acompanhantes fantásticos, sempre preocupados, cuidavam muito bem do senhor. Perguntavam bastante. Ela estudou muito para sanar todas as dúvidas. Mostrou e explicou desde a execução aos resultados de exames laboratoriais e de imagem, mencionou o motivo do uso de antibióticos, falou o porquê da troca do esquema utilizado, conversavam bastante. Formou-se uma amizade. Temia que o paciente morresse visto a debilidade do mesmo e a troca sucessiva de antibióticos. Tentou se preparar para dar notícias ruins. Mas, como? Eles estavam tão esperançosos! Angústia, preocupação, tristeza. Surpresa?
O paciente obteve melhora. Alívio! Foi dada alta e a amizade continua. Participou da Renovação na casa deles. Passaram-se alguns dias. Susto. Foi internado na UTI do Hospital de outra cidade. Pneumonia, novamente. A interna foi visitar. Medo de encontrar o pior... Mais uma vez, alívio. O senhor passou dias internado, mas obteve alta e retornou à sua residência. Mais dias se passaram. E mais um internamento. Dessa vez não precisou de UTI, estava na enfermaria do Hospital Escola onde se viram pela primeira vez. A estudante o visitou, pois agora ela está em outro rodízio. O mesmo estava bem, na medida do possível. Mais uma vez se recuperou e teve alta. Sucesso! Hoje, o contato é sempre mantido. E o “paciente preferido” encontra-se no aconchego de seu lar cercado dos cuidados e mimos de sua esposa e filhos amados.
Atualmente, a interna se encontra no rodízio de Medicina Comunitária. Está gostando e aprendendo bastante. Muito diferente do anterior. Logo no primeiro dia houve uma reunião com a coordenadora do rodízio onde foi explicado tudo sobre essa nova etapa e sanadas as dúvidas sobre a mesma. A Unidade Básica de Saúde a qual foi designada é ótima. Lá tem tudo? Não, falta muita coisa. Perfeito? Só Deus. Estão em greve, reivindicam aumento de salário e melhores condições de trabalho. Apoiado! Devido a esse fato, não estão ocorrendo aulas práticas e isso é péssimo. Estão acontecendo encontros teóricas na Faculdade, o que não é tão ruim... No entanto, a preocupação maior está na população que se encontra sem o atendimento primário e no elevado número de pessoas que se dirigem diariamente aos setores de emergência, o que gera uma super lotação nos serviços de saúde e pior atendimento pelos médicos plantonistas, que agora estão sendo obrigados a atenderem o triplo do número de pacientes. Culpa dos servidores que aderiram a greve? De forma alguma. Culpa de quem prometeu e não cumpriu. E agora? Espera. Enquanto isso a interna lê e medita sobre a seguinte frase: “Afinal, o médico tem que trabalhar, antes, em benefício de quem o procura, mesmo com riscos para benefícios próprios, ainda que legítimos.” Tirem suas conclusões!
Dra. Fulaninha.
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